Conferencista: Elisa Dettoni, Especialista em Sustentabilidade e Responsabilidade Social; Gerente de Projetos de Produção e Consumo Sustentável na UN Environment

Vou falar do que é a campanha Mares Limpos. Uma campanha da ONU-Meio Ambiente que foca na poluição plástica marinha. Trouxe alguns números para vocês conhecerem um pouco da realidade que a gente está vivendo com relação ao lixo no mar e algumas realidades de engajamento que a gente pode trabalhar com todos os setores e um pouco do que a gente vem fazendo em Santa Catarina com alguns municípios.

A ONU Meio Ambiente trabalha com a agenda 2030 e dentro desse tema trabalhamos principalmente com a temática de consumo, produção responsável e vida na água. A vida na água é importante, por causa do foco que a gente está dando para a conservação dos oceanos. Mas, o consumo e produção responsável ganharam uma super importância porque a gente começou a entender que tudo parte da produção e do consumo sustentável, eles acabam impactando tudo.

Bom, qual é o problema que temos hoje?

Entre 60% e 90% do lixo encontrado nos mares é composto por vários tipos de plásticos.

Queria antes fazer uma ressalva, trazemos o plástico como um vilão, na realidade não a gente e sim os dados. Mas o plástico foi uma conquista da humanidade. Pois ele tem vários benefícios como por exemplo: transportar o sangue que é doado para transfusões, está em vários componentes de transporte, da indústria… Mas aqui o nosso foco é o plástico que a gente chama de uso único, é aquele plástico descartável. Esse é o plástico mais encontrado nos oceanos, algumas estimativas apontam que se a gente continuar com essa relação com o plástico, em 2050 a gente vai ter mais plásticos do que peixes nos oceanos. Nós já estamos ingerindo plásticos hoje por conta dos microplásticos.

Mangue de Santos/SP

As Filipinas tem várias ilhas encontradas no meio do oceano que são ilhas de plástico e resíduos. Mas essa realidade também é nossa. Essa é uma foto do mangue de Santos, a gente nem consegue saber o que tem embaixo disso, se tem água ou se tem terra, porque é só resíduos. Claro que tem vários outros resíduos que são importantes da gente lidar também mas, se você olhar para essa foto você vê basicamente plásticos, como copos descartáveis, isopor, embalagens de refrigerante, embalagens de cosmético e embalagens de produto de limpezas. Então o nosso foco é atacar o plástico que é hoje o que traz o maior impacto para o meio ambiente.

Essa é uma realidade de hoje. Até a Segunda Guerra Mundial havia uma consciência do uso das coisas de maneira mais permanente. Eu vivi a geração que levava a garrafa de vidro para o supermercado para trazer outra cheia com refrigerante. Parece que estamos voltando para essa época. Pois estamos vendo muitas empresas fazendo esse movimento. Mas, o plástico é um problema desde 1950, quando ele se tornou um artigo de comodidade e de conforto. As pessoas começaram a consumir o plástico sem pensar sobre ele, ele era visto como uma solução e não se pensava em uma consciência de uso. Só para vocês terem uma ideia, a gente tem hoje aproximadamente 3 bilhões de toneladas de microplásticos e 5,3 bilhões de toneladas de macroplástico já produzidos no mundo. 44% dessa produção foi nos últimos 15 anos, a partir de 2000.

A consciência recente do uso indiscriminado do plástico comum, para qualquer coisa, é que é o problema. O problema não é o plástico em si. Para quem não sabe o que é o microplástico: temos tanto os resíduos dos grandes plásticos que viram pedaços de menos de 5 mm, como também as purpurinas e as microesferas que são muito utilizadas em cosméticos, como esfoliante por exemplo. Eles são muito ingeridos pelos animais porque eles os confundem com outros alimentos. Há um estudo de 2013 que diz que o microplástico foi encontrado na urina de 95% dos adultos dos Estados Unidos. Ou seja, já estamos comendo plástico, a parti dos peixes! Os números são alarmantes. Queria dar um destaque para esse dado: pelo menos 51 trilhões de partículas de microplástico já estão em nossos oceanos, 500 vezes mais do que o número de estrelas em nossa galáxia.

O que é o Lixo Marinho?

É o lixo que sai da terra para o mar. Ele tem um viés de consumo muito grande, é o lixo que a gente está deixando chegar ao mar. 80% do lixo no mar são resíduos terrestre, 50% do resíduo plástico que chega nos oceanos são de embalagens. As bitucas, as sacolas plásticas, os equipamentos de pesca e embalagens de alimentos e bebidas são os mais encontrados nos mutirões de limpeza. E a indústria do plástico espera dobrar sua produção entre 10 e 15 anos. A gente precisa fazer um convite para essa indústria pensar em outra forma de aumentar essa produção. Vamos a mais alguns números: em 2018 uma estimativa mundial indicou o consumo de 5 trilhões de sacolas e sacos plásticos por ano. Em 2010 essa estimativa era de 12 bilhões.

Qual é a principal fonte desse problema então?

Nós temos o consumidor, que está consumindo desenfreadamente o descartável, temos as empresas que produzem e precisam repensar a forma dessa produção: qual a matéria-prima, logística reversa, como fazer esse plástico ser uma plástico que é mais reciclável e tenha mais valor de mercado?

Temos ausência ou ineficiência de legislação, precisamos pegar um pouco mais pesado nisso. A gestão inadequada dos resíduos sólidos é uma realidade brasileira, inclusive até de outros países, e o setor pesqueiro tem uma forte influência nisso. A Proteção Animal Mundial, que é uma ONG que trabalha muito com a população marinha principalmente, traz dados alarmantes de que 640 mil toneladas de resíduo pesqueiro é encontrado no mar anualmente. Esse é um resíduo invisível, não é aquele que a gente coleta nos mutirões, não é aquele que a gente consegue enxergar. Então, o resíduo pesqueiro, o consumidor e a gestão de resíduos são as três principais fontes do resíduo no mar, de acordo com estudo da ONU.

Entendemos a campanha Mares Limpos como uma forma de fazer uma mudança, ela não é só uma campanha de comunicação. Ela traz uma proposta de engajamento, de mudanças públicas. São duas frentes principais que a gente trabalha: uma essa de conscientização, convocando a população para essa mudança de hábito da relação com plástico, e uma segunda é o que a gente chama de advocaci, que é a mobilização com o governo e as empresas em prol de uma nova forma de lidar com essa situação.

Os mutirões são um canal genial para conversar com a sociedade, primeiro porque eles nos ajudam a gerar dados, para a gente entender que resíduo é esse, e segundo porque eles transmitem o que eu chamo da sensibilização com a experiência. Uma vez que a pessoa encontra um animal com resíduo instalado, encontra aquele resíduo naqueles lugares, ela vai repensar o seu consumo, pois ela viveu aquela realidade.

O setor privado é um fator determinante para a gente fazer essa mudança em relação ao plástico. 161 milhões da produção mundial de plástico no setor é para resíduo de uso único.

E como que a gente convida a Indústria a mudar essa percepção?

Para isso, a gente tem a economia circular, que é um modelo que repensa a gestão dos negócios. Para a economia circular, um negócio que gera resíduo é um erro, é porque que não foi bem bolado, então eles trazem várias soluções. A principal é o redesign e a reciclabilidade. Faz você repensar o design do produto para que ele consiga ser reutilizado, ter reuso maior dentro da sua perspectiva de reciclabilidade e poder voltar a trabalhar uma logística reversa ou ainda que ele tem um valor de mercado maior. Sabe por que ninguém vê um latinha de alumínio boiando no oceano?

Porque a latinha de alumínio tem valor agregado. Como a gente dá valor então para esses itens plásticos? A economia circular também fala muito da reciclagem, da gestão de resíduos mais efetiva, da reciclagem como uma alternativa economicamente atraente e isso no Brasil é uma realidade por conta dos catadores, da inclusão social. A gente realiza e trabalha também essa questão dos Clean ups como uma retirada do passivo, a gente precisa meio que trocar a roda com o carro andando.

As três estratégias para transformar a indústria de embalagens do plástico é: trabalhar muito a inovação dentro das embalagens desses plásticos, pensar que só 9% de todo o plástico produzido pela humanidade foi reciclado, 12% incinerado e 79% está acumulado por aí, no meio ambiente, nos lixões ou aterros sanitários. Isso é muito sério porque a gente continua produzindo e sem dar um destino adequado para ele. Alguns dados também mostram que a má gestão de resíduos com o crescimento da população e o volume produzido de plásticos é o maior potencial de vazamento do lixo para os oceanos.

A reciclagem do Brasil tem um fator principal que é a questão dos catadores. Hoje, a cada tonelada de material reciclado, cria-se emprego para 3,16 catadores que recolhem esse material, gerando renda e aquecendo a economia. As pessoas precisam compreender a importância da coleta seletiva e da destinação correta do lixo. Quando eu jogo aquela latinha no lixo, ela está permitindo que o filho do catador vá para a universidade, que gere renda e emprego naquela comunidade e novos negócios. Assim as pessoas conseguem enxergar melhor, não é simplesmente “estou fazendo o trabalho da prefeitura”, na verdade eu estou contribuindo para acensão dessas pessoas, inclusive porque a gestão de resíduos acaba impactado muito a comunidade de baixa renda. Essa é a realidade de muitas pessoas que trabalham com reciclagem e eles colocam famílias inteiras nisso.

Quais são os caminhos práticos?

A ONU lançou junto com a fundação Ellen MacArthur, que é uma fundação que traz a economia circular para o mundo, esse compromisso global para uma nova economia do plástico. É um compromisso de repensar e pensar a economia circular na gestão da cidade. São Paulo foi a primeira cidade brasileira a assinar, já tem alguns países, mas São Paulo é a pioneira.

O Governo Federal lançou o plano de combate ao lixo no mar que convida os municípios a pensarem as suas ações, a criarem os seus planos de combate ao lixo no mar, impulsionar pesquisas, realizar atividade de educação ambiental. Enfim, eles tem vários eixos estruturantes e metas.Pode ser encontrado tudo no site do Ministério do Meio Ambiente, mas a ONU também lançou o compromisso Mares Limpos, que convida as cidades brasileiras. A campanha Mares Limpos se comprometeu a realizar e elaborar um plano de ação Municipal de combate ao lixo no mar.

Pode ser encontrado tudo no site do Ministério do Meio Ambiente, mas a ONU também lançou o compromisso Mares Limpos, que convida as cidades brasileiras. A campanha Mares Limpos se comprometeu a realizar e elaborar um plano de ação Municipal de combate ao lixo no mar.

Esse compromisso tem cinco vertentes, conscientização de políticas públicas e mudanças na administração pública com a prefeitura começando dentro de casa, por exemplo, com o consumo do plástico, compras sustentáveis… Como que a gente como órgão público consegue fazer essa mudança para dar o exemplo? Como que você consegue trabalhar com as indústrias e a infraestrutura, principalmente voltado à gestão de resíduos.

Temos 13 municípios de Santa Catarina que são signatários deste compromisso, 11 dentro da AMFRI, que é uma super parceira nossa. Eles estão com uma consulta pública e estão lançando esse plano até o final do ano. Outros dois municípios são Itapoá e São Francisco do Sul. São Francisco do Sul foi o primeiro município a entregar o seu plano e já está em funcionamento.

Por último,compartilho com vocês uma filmografia interessante sobre essa temática quese encontra em sites próprios, no YouTube e Netflix.